sábado

Cinismos!

Eu hei-de-lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha Cruz e meu Calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o mei intimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tao triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olha-la dum modo tao nervoso

Que ela ha-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E ha-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, entao, soltar uma risada...


(Poema da autoria do grande Cesário Verde)

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